ESTUDO
Manguezais de Alagoas escondem microrganismos com potencial científico
Pesquisa da Ufal revela diversidade invisível e alerta para ameaças ao ecossistema
Microrganismos presentes nos manguezais de Alagoas podem esconder um potencial ainda pouco explorado pela ciência e pela indústria. Um estudo coordenado por pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) identificou uma grande diversidade de leveduras nesses ambientes, que podem ter aplicações em áreas como produção de enzimas, indústria alimentícia e biotecnologia ambiental.
Os resultados da pesquisa foram reunidos no artigo “Leveduras e manguezais: diversidade e biotecnologia escondida”, publicado no Boletim Microbiota da Sociedade Brasileira de Micologia. O trabalho apresenta parte das investigações conduzidas há mais de uma década pelo Laboratório de Diversidade e Biotecnologia Microbiana da universidade.
Segundo a coordenadora da pesquisa, a microbiologista Melissa Fontes Landell, os manguezais são ambientes extremos, com pouco oxigênio no solo, variações de salinidade e grande quantidade de matéria orgânica. Essas condições favorecem o desenvolvimento de microrganismos altamente especializados.
Embora os manguezais sejam conhecidos por abrigar aves, peixes e crustáceos, há também uma enorme diversidade microscópica nesses ecossistemas. As leveduras — um tipo de fungo microscópico — desempenham funções essenciais para o equilíbrio ambiental.
Esses organismos participam da decomposição da matéria orgânica, ajudam na ciclagem de nutrientes e contribuem para manter o funcionamento do manguezal. Também interagem com plantas e outros organismos, ajudando a sustentar a complexa rede de vida nesses ambientes.
As pesquisas analisadas no artigo incluem expedições científicas realizadas em diferentes regiões do estado, com destaque para o Complexo Estuarino Lagunar Mundaú-Manguaba, um dos principais sistemas lagunares do litoral alagoano.
Os estudos contam com a participação de estudantes de graduação e pós-graduação da Ufal, envolvendo projetos de iniciação científica e programas de pós-graduação em bioquímica e biologia molecular.
Ecossistema ameaçado
Apesar da riqueza biológica, os manguezais de Alagoas enfrentam forte pressão ambiental. Dados do Atlas dos Manguezais Brasileiros, elaborado no âmbito do programa Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável dos Manguezais do Brasil (ProManguezal), mostram que o estado possui cerca de 5.537 hectares desse ecossistema.
A área representa apenas 0,4% dos manguezais do país, concentrados principalmente no litoral norte e em regiões como a Lagoa do Roteiro.
Além da pequena extensão territorial, o estado também registra uma das maiores taxas de perda desse bioma no Nordeste. Em cerca de 17 anos, 14% dos manguezais alagoanos desapareceram, principalmente por causa da expansão urbana, poluição por esgoto, acúmulo de resíduos sólidos — especialmente plástico — e desmatamento.
Além da biodiversidade, os manguezais também têm um papel estratégico no equilíbrio ambiental do planeta. Esses ecossistemas funcionam como importantes reservatórios naturais de carbono, ajudando a reduzir os impactos das mudanças climáticas.
Também atuam como barreiras naturais contra a erosão costeira e protegem o litoral da força das ondas. Ao mesmo tempo, servem como berçário para diversas espécies marinhas e garantem a subsistência de comunidades tradicionais que dependem da pesca e da coleta de mariscos.
Mesmo sob pressão, esses ambientes ainda guardam uma diversidade biológica significativa. Para os pesquisadores, isso reforça a necessidade de ampliar os estudos e fortalecer ações de conservação.



